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Flávia Furtado: “Em sua 23a edição, o Festival Amazonas de Ópera homenageia Beethoven e consolida parcerias internacionais”

O Festival Amazonas de Ópera (FAO) acontecerá entre os dias 18 de abril e 7 de junho de 2020, em Manaus. Em paralelo às atividades tradicionais do evento, será realizada também a segunda edição do “Encontro de Teatros de Ópera e Economia Criativa da América Latina”.

A entrevista de Flávia Furtado para a Ópera Latinoamérica está traduzida abaixo para o português. A versão original, em espanhol, e a tradução para o inglês podem ser lidas no site da OLA.

OLA – Quais são as expectativas e novidades desta 23a edição?

Este ano, estamos mais atuantes nas redes sociais e lançamos um novo website, o que nos ajuda a estar mais próximos do público de fora de Manaus e também a tornar o festival ativo durante todo o ano. Além da parceria já estabelecida com a TV Encontro das Águas, que transmite as récitas no Brasil, temos agora um acordo muito bem-vindo com o canal Allegro HD, que transmitirá as montagens do FAO para Argentina, Uruguai, Paraguai, Equador e Colômbia. Estamos homenageando 250 anos do nascimento do compositor Beethoven com a montagem de “Fidelio”, sua única ópera. 

Teremos ainda o “II Encontro de Teatros de Ópera e Economia Criativa da América Latina”, que vai reunir as secretarias estaduais de Cultura, Planejamento, Turismo e Educação; a Ópera Latinoamérica; a Frente Parlamentar Mista da Economia Criativa; o vice-ministro de Cultura e Economia Criativa da Colômbia e a Opera Co-Pro de Londres. 

Temos trabalhado para implementar parcerias com teatros brasileiros e internacionais. Em 2019, nossa montagem do “Fausto”, de Gounod, foi levada para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e para o Teatro Municipal de Santiago, no Chile. Este ano, a 23a edição do festival contará com parcerias com a Universidade de los Andes, de Bogotá, para a montagem de “Peter Grimes”, de Britten, e com a Ópera da Colômbia para a montagem de “Fidelio”, de Beethoven. O Theatro Municipal de São Paulo nos cede, para um projeto de cooperação técnica pioneiro no Brasil, o funcionário Aníbal Marques, conhecido como Pelé, um dos mais antigos diretores técnicos em atuação na ópera brasileira, que vai passar para a equipe manauara a sua experiência de décadas. 

Também estamos ampliando o projeto “’Ópera Mirim” e trabalhando para capacitar professores das escolas públicas de Manaus. Os alunos começarão a conhecer e a se envolver com a ópera um mês antes de assistirem à ópera “Onheama”, adaptada para teatro de marionetes. Este será um grande ano para o FAO. 

OLA – Os teatros de ópera brasileiros têm conseguido se articular e trabalhar em parceria?

Sabemos que o trabalho em rede, o intercâmbio de montagens e o apoio mútuo são fundamentais para fortalecer o setor e vencer dificuldades. Muita coisa ainda precisa ser construída nesse sentido, mas é possível elencar algumas ações concretas que já estão em curso.

Em 2019, o FAO organizou o “I Encontro de Teatros de Ópera e Economia Criativa da América Latina”, que reuniu representantes de teatros brasileiros e de alguns países vizinhos, representantes da OLA e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, dois secretários estaduais de Cultura e também o secretário nacional de Cultura. Foi o embrião de um movimento de união para a construção de um discurso comum ao setor, para que possamos ter mais peso em nossas demandas. 

Depois disso, os teatros reuniram-se novamente, no Theatro Municipal de São Paulo, no evento “Ópera em Pauta”, no qual puderam aprofundar as questões sobre intercâmbio e parcerias possíveis. Também foi anunciada nesta ocasião a eleição de Manaus como sede da Assembleia Geral da OLA em 2021. Será a primeira vez que o Brasil sediará esta reunião internacional. Receber gestores, artistas, técnicos e demais profissionais ligados à cadeia produtiva da ópera vindos de toda a América Latina e Espanha será um momento de troca de experiências de valor inestimável. 

O “II Encontro de Teatros de Ópera e Economia Criativa da América Latina” acontecerá em Manaus no dia 1 de junho deste ano, durante a 23a edição do FAO. A reunião contará com as presenças de Felipe Buitrago, vice-ministro de Cultura e Economia Criativa da Colômbia, de Ambra Sorrentino, CEO da Ópera Co-Pro e de Alejandra Martí, diretora executiva da OLA.

A Academia Brasileira de Música está, neste momento, coordenando uma pesquisa ampla para mapear todos os teatros brasileiros que já montam ou têm estrutura para montar óperas, assim como todas as companhias independentes de ópera atuantes no país. Essa pesquisa é fundamental para conseguirmos visualizar todo o nosso potencial e entender quais são os nossos principais gargalos. A partir disso, poderemos ter políticas públicas e parcerias privadas ainda mais eficazes.

Por fim, temos mais um teatro brasileiro ingressando na OLA, o Theatro São Pedro, de São Paulo, que se une ao Teatro Amazonas, ao Theatro Municipal de São Paulo, ao Theatro da Paz, de Belém, e à Cia Ópera São Paulo.

OLA – O que pode ser feito para que a ópera ganhe mais espaço e investimento no Brasil?

A ópera é um gênero solidamente entendido como expressão de cultura, e precisa agora ser entendida mais amplamente dentro da cadeia da economia criativa, como um setor gerador de emprego e renda, com alcance também para as áreas de educação, turismo e política externa. Para isso, vejo o envolvimento de outras secretarias de governo, tanto estaduais quanto federais, como assunto de extrema importância. Queremos envolver também a Frente Parlamentar Mista da Economia Criativa nas discussões do setor. 

As demandas especificas da ópera, como desenvolvimento de pesquisas, continuidade na gestão dos teatros, editais próprios, formação de profissionais, manutenção de centrais técnicas, facilitação de intercâmbios internacionais, restauração de partituras, entre outros, precisam chegar com clareza aos formuladores de políticas públicas, assim como o enorme retorno em termos sociais e culturais que o setor tem o potencial de entregar ao país. 

De um modo geral, tanto para parcerias públicas quanto privadas, é fundamental comunicar a ópera como um gênero musical que permanece ativo, com compositores e montagens contemporâneos que convivem bem com os títulos já consagrados pela história.  

Um levantamento feito pelo crítico Sérgio Casoy mapeou a existência de pelo menos 144 títulos e 51 compositores que escreveram e ainda escrevem óperas no Brasil. São nomes que vão de Carlos Gomes a Chiquinha Gonzaga, de Noel Rosa a Claudio Santoro, e chegam até Leonardo Martinelli, um compositor jovem e contemporâneo. Isso mostra que o Brasil tem uma história de longa data com a ópera e possui um acervo valioso que precisa ser conhecido, preservado, restaurado e montado pelos teatros.

Manaus é um excelente exemplo do interesse que a ópera gera hoje em dia: o FAO tem uma das plateias mais jovens de todo o mundo, de acordo com o crítico espanhol Juan Angel Vela del Campo. 

OLA – O Brasil foi o primeiro país da América Latina a firmar um acordo de colaboração com a Ópera Latinoamérica (OLA), em maio de 2019, em Manaus. Você destacaria algum resultado positivo para o setor desde então?

A assinatura do acordo com a OLA foi um marco que jogou ainda mais luz sobre o potencial da ópera como gênero musical vivo, atual, gerador de empregos e renda e divulgador de cultura e educação. Uma ótima notícia foi o anúncio recente de um novo edital da Funarte (Fundação Nacional de Artes) que disponibilizará, em 2020, três milhões de reais (USD 695.000) para o fomento direto da ópera no Brasil. 

É muito importante que a ópera consiga editais, linhas de crédito e apoios específicos. Assim, o setor poderá se fortalecer e estruturar, gerando resultados cada vez mais sólidos e ampliando seu impacto social.