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Ópera em Pauta

Theatro Municipal de São Paulo

Foto: Bruno M. Viana

Fala de Flávia Furtado

​​​​​​​Diretora Executiva do Festival Amazonas de Ópera

A Ópera é entendida no mundo inteiro como impulsionadora da economia, grande geradora de empregos, incentivadora do turismo e forte fonte de soft power. O gênero ultrapassa a área cultural e movimenta também as áreas de turismo, educação, economia e política pública.

Por isso, mesmo com todas as crises, o investimento no setor não é interrompido. Mesmo países orientais, como China, Japão e Coreia, têm investido cada vez mais nessa manifestação cultural.

O Japão investe em teatros de ópera e orquestras sinfônicas nos moldes ocidentais desde seu plano de reconstrução, após a segunda guerra mundial.

A China e a Coreia abriram casas de ópera modernas dos anos 2000, incentivando a produção contemporânea.

O diretor da Ópera Nacional da China, Chen Zouhuang, declarou em uma entrevista ao jornal New York Times que o desenvolvimento da ópera na China hoje reflete a política do país, muito rápida e muito ambiciosa, afirmando que os chineses pretendem ser um dos grandes players do mercado mundial no setor.

Existem três grandes instituições internacionais hoje que cuidam da indústria da Ópera: a Ópera América, a Ópera Europa e a Ópera Latinoamérica. Elas têm funcionado como grandes câmaras de comércio e impulsionado o setor desde que foram criadas.

Para se ter uma ideia do tamanho do mercado mundial, a Ópera América declara ter movimentado mais de USD 1.9 bilhão em 2017.

Nossos vizinhos latino-americanos já entenderam o potencial da ópera e o setor tem sido acompanhado por representantes de Ministérios da Cultura, Câmaras de Comércio Exterior e Relações Internacionais em países como Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Há muito investimento e novos teatros têm sido inaugurados nas últimas décadas por toda a América Latina, além da revitalização dos que já existem.

Hoje, no Brasil vivemos um boom de projetos sociais ligados a música clássica, muitos deles com histórias de sucesso. Isso significa que existe uma nova geração de músicos sendo formada. Mas, onde esses jovens profissionais irão trabalhar? Onde está o mercado que vai absorver talentos para que possam realmente viver da música? É preciso criar um mercado profissional para absorver esses jovens.

Ao mesmo tempo, um levantamento da Academia Brasileira de Música indica que o Brasil possui 91 teatros com estrutura física para receber espetáculos de ópera. Destes, apenas seis promovem atividades regulares.
Isso significa, objetivamente, que a maioria desses teatros constituem patrimônio imobilizado e custos, sem geração de receita ou emprego, para muitos municípios e estados brasileiros.

A ópera tem uma das cadeias de produção mais diversificadas, que envolve, além dos profissionais ligados à música, diversas categorias de técnicos e artesãos. Desta forma, conseguimos atingir e qualificar uma camada da população sem educação formal, justamente a que mais necessita de empregos.

O FAO é hoje o principal evento de ópera no país. Manaus apresentou em 2019 cinco óperas completas, além de concertos, balés e recitais em sua programação paralela.

Para termos uma base de comparação, a Ópera de Berlim apresenta, em média, 36 títulos por ano. O Teatro Colón, na Argentina, cerca de 14.
Sabemos que as verbas destinadas ao setor ainda são pequenas no Brasil, mas podemos olhar para o nosso cenário com otimismo, pois temos estrutura pronta, mercado ocioso e público ávido. O país precisa revitalizar seus teatros e colocar essa economia para girar.

Acompanho o mercado internacional de ópera há duas décadas e vejo hoje um aquecimento global em torno desse gênero e um interesse crescente na América Latina. Precisamos colocar o Brasil dentro dessa engrenagem.

Neste sentido, fico muito feliz em estarmos todos aqui neste encontro, discutindo o potencial da ópera com representantes da Cultura, da OLA, e de outros estados do Brasil. Que possamos caminhar cada vez mais juntos, sempre.